SEVILLANAS
As Sevillanas correspondem, como diz
o nome, a um ritmo originário
de Sevilha, extremamente popular em
toda Andaluzia, sendo derivado das
antigas "Seguidillas Manchegas
de Castilla", aclimatadas à
região de Sevilha. Suas formas
"bailáveis", que
incluem Sevillanas "Boleras",
"Corraleras", "Rocieras",
entre outras, constituem um dos fenômenos
de maior popularização
de todo o cante andaluz.
As Sevillanas são muito vivas
e tão populares que sofrem
constantemente adaptações
para novos estilos - que diferem não
só pela letra, mas também
pela acentuação, linha
melódica e harmônica.
Ainda que possa ter uma interpretação
flamenca, tanto no cante como no acompanhamento
musical, a Sevillana não constitui
propriamente um ritmo flamenco, sendo
principalmente um ritmo folclórico
e popular da Andaluzia, que alimenta
eventos populares como a famosa "Feria
de Abril".
Em qualquer das suas formas a Sevillana
se caracteriza como um ritmo construído
sobre compassos ternários,
com uma estrutura de compassos bastante
rígida para permitir o baile
característico, usualmente
dançado em "parejas".
Exige bastante criatividade dos compositores
para que os versos se adaptem a esta
estrutura rígida e obriga muitas
vezes o uso do recurso da repetição
de frases para encaixar as coplas
na métrica. Sua harmonia pode
ser construída sobre tonalidades
maiores ou menores, dependendo do
tema, sendo possível o uso
de estruturas harmônicas mais
flamencas.
Ainda que não seja um ritmo
verdadeiramente flamenco, existe uma
infinidade de gravações
de Sevillanas entre os artistas flamencos
incluindo quase todos os guitarristas
mais conhecidos como Paco de Lucía,
Tomatito e Gerardo Nuñes (Recomendamos
"Cobre", com Paco de Lucía
no CD "Almoraima" - Polygram
1976) e muitos cantaores. Também
existe uma enorme quantidade de outras
gravações menos flamencas
e mais festeiras, de artistas especializados
em Sevillanas (que podem ser encontradas
em qualquer volume da série
"Sevillanas de Oro") com
destaque para Salmarina, Los Romeros
de la Puebla, Cantores de Hispalis,
Los Marismeños, entre outros.
A melhor opção para
se ter um panorama completo do gênero,
no entanto, é a trilha sonora
do filme "Sevillanas", de
Carlos Saura (Juan Lebron Producciones,
1992). Nele se pode encontrar todos
os estilos e interpretações
de Sevillanas, incluindo preciosidades
como Camarón de la Isla acompanhado
por Tomatito na sua última
gravação antes do falecimento
precoce. Nesta fantástica gravação
Camarón nos brinda com toda
sua riqueza rítmica evoluindo
uma das coplas para uma buleria e
voltando ao ritmo original. Também
podemos desfrutar de um raro dueto
entre Paco de Lucía e Manolo
Sanlúcar ("Sevillana a
Dos Guitarras"), além
da própria "Sevillanas
Flamencas" de Manolo, entre outras.
Sem dúvida, o filme Sevillanas
e sua trilha sonora representam um
belo painel deste gênero, que
consideramos imperdível.
GUAJIRAS
A Guajira flamenca pertence a um conjunto
de ritmos denominados genericamente
como "Cantes de Ida y Vuelta",
que agrupam ritmos que se "aflamencaram"
a partir de gêneros hispano-americanos.
Entretanto, não devemos nos
enganar com esta classificação
genérica, pois a influência
da América (e em particular
de Cuba) na música flamenca
é bastante notável para
querermos reduzi-la aos denominados
"Cantes de Ida y Vuelta".
Como já comentamos anteriormente
quando falamos dos Tangos Flamencos,
muitos outros ritmos poderiam ser
considerados como 'de ida e volta".
As Guajiras se originaram a partir
de um gênero cubano denominado
"punto", ou "Punto
de La Habana", como era chamada
na Espanha. O "aflamencamento"
desses elementos cubanos acabaram
por cristalizar, a meados do século
XIX, num tipo de composição
musical que se passou a chamar de
Guajira. O primeiro registro de uma
possível versão flamenca
que se tem data de 1860 quando se
apresenta num teatro de Jerez a canção
"Guajira". O gênero
gozou de grande popularidade a partir
do fim do século XIX, entrando
numa certa decadência a partir
da segunda metade do século
XX. Ainda assim foi incluída
no repertório dos principais
guitarristas no século XX com
Miguel Borrul e Ramón Montoya
e na década de 30 o cantaor
Pepe Marchena evoluiu a Guajira até
chegar a um cante mais flamenco, não
apropriado para baile.
Atualmente são conhecidas mais
de 30 tipos de interpretações
diferentes de Guajiras. A Guajira
flamenca é cantada numa "décima",
'copla" de dez versos de oito
sílabas e a temática
das suas letras está freqüentemente
relacionada a qualquer tema relacionado
com Cuba. Com relação
ou ritmo, as Guajiras usam combinações
de compassos 6/8 ou 3/4 semelhante
a Alegrias ou Cantinhas.
Como audições recomendadas
deste ritmo flamenco mencionamos para
solo de guitarra a excepcional "Guajiras
de Lucia' de Paco de Lucia ("Fantasía
Flamenca de Paco de Lucía"
Polygram 1969). Para o cante a gravação
de Pepe de Lucía (acompanhado
por Paco de Lucía e seu grupo)
de "Hermosísima Cubana"
para a trilha sonora de 'Flamenco"
de Carlos Saura (Juan Lebron Producciones,
1995). Também vale a pena conferir
no filme de Carlos Saura, o baile
para esta Guajira, uma interpretação
um pouco clássica a cargo do
grupo de Merche Esmeralda.
Entre as gravações mais
tradicionais podemos mencionar Pepe
Marchena, cuja interpretação
deste ritmo pode ser apreciada na
faixa "Em um Potrerito"
do CD da série 'Grands Cantaores
du Flamenco", volume 10 (Lê
Chant du Monde, 1986).
TANGOS
Os
Tangos, como hoje são conhecidos
no Flamenco, se originaram do chamado
“tango americano”, ritmo
originário em Cuba com forte
influência dos ritmos africanos
e que chega aos portos da andaluzia
no meio do século XIX. Do ritmo
americano original se originaram os
tangos de Cadiz (depois Tanguillos)
e os tangos americanos que incorporaram
elementos flamencos e deram origem
aos Tangos flamencos, como hoje os
conhecemos.
Na
época da chegada do tango americano
à andaluzia, muitos elementos
musicais do flamenco se encontravam
em estado de cristalização
e os intérpretes tiveram neste
ritmo uma forma interessante de representar
elementos flamencos sobre compassos
binários, numa divisão
de dois ou quatro tempos, que representava
uma novidade com relação
aos demais ritmos que utilizavam predominantemente
compassos de doze ou três tempos.
Desta forma, o Tango Flamenco propriamente
dito surgiu na virada do século
como o resultado de se adaptar alguns
elementos de “jaleos”
andaluzes de compasso ternário,
e introduzi-los ao compasso quaternário
do tango americano.
O
Tangos constituem um ritmo bastante
rico e versátil, existindo
muitas variações em
suas interpretações
nas diversas regiões por toda
andaluzia. Como regra comum o compasso
quaternário bem marcado o cante
usualmente alegre e festeiro.
Como
audições recomendadas
deste ritmo flamenco entre os mestres
do flamenco mencionamos para solo
de guitarra a bela “Solo Quiero
Caminar” de Paco de Lucia (“Solo
Quiero Caminar” – Polygram
1981), além da interessante
“Me Regalé” (“Luzia”
– Polygram 1998) que conta com
cante de Denquende. Para o cante a
gravação de Camarón
de La Isla do clássico “Como
El Agua” no disco “Camarón
– Paris 1987” (Universal
Music Spain, 1999).
Entre
as gravações mais recentes
não poderíamos deixar
de mencionar Remédios Amaya,
cuja interpretação tão
particular deste ritmo pode ser apreciada
no filme “Flamenco”, do
diretor Carlos Saura, e cujo CD “Me
Voy Contigo” (EMI, 1997) apresenta
os imperdíveis “Flores
Amargas”, “Amarraita en
Tu Pelo” e “Turu Turai”,
todas com a guitarra de Vicente Amigo.
Entre os cantaores recomendamos “Entre
Vareta y Canasta”, faixa título
do ultimo CD de Dieguito “El
Cigala”, lançado em Junho/2000
(Gravadora Nuevos Medios).
E
para finalizar, como uma ponte entre
a tradição e a modernidade,
entre o cante e o solo de guitarra,
recomendamos a audição
da faixa “Machuka” que
reúne o guitarrista Pepe Habichuela
e o cantaor Potito e pode ser encontrada
nos CDs “Habichuela en Rama”
(Nuevos Medios, 1997) e “Jóvenes
Flamencos volume VI” (Nuevos
Médios, 1998).
FARRUCA
Como
os Tangos, os Tientos e o Garrotin,
a Farruca também pertence à
família de ritmos originados
do tango americano, que durante o
século XIX trouxe à
andaluzia a influência africana
dos compassos binários e quaternários.
O nome Farruca, segundo alguns autores,
procede do termo “farruco”
como são chamados na andaluzia
e em Cuba aos galegos e aos asturianos
recém saídos da sua
terra. Entretanto, os elementos musicais
que constituem a Farruca pertencem
na sua maioria ao grupo de ritmos
dos tangos. Considerando porém
as relações entre este
ritmo e a galícia, inclusive
em algumas “coplas” em
que se faz alusão a esta terra,
não podemos deixar de considerar
a Farruca como um ritmo flamenco um
pouco “agalegado”.
Deixando
a história de lado, a Farruca
se caracteriza por um ritmo construído
sobre um compasso quaternário
ou binário, com sua harmonia
construída sobre tonalidade
menor. O acompanhamento da guitarra
é entrecortado ao estilo do
tango argentino ou do pasodoble espanhol.
Dentre
as várias manifestações
do flamenco a Farruca se destaca como
baile e como solo de guitarra. No
baile se destaca o sapateado com uma
grande profusão de contratempos
e figuras rítmicas de grande
virtuosismo que convertem este gênero
em prova definitiva para muitos bailaores.
A
Farruca apresenta múltiplas
facetas: é um baile predominantemente
para homens, tendo sido imortalizada
por bailaores como Antonio Gades,
e entretanto vem ganhando força
entre as mulheres como pode ser constatado
na última tournê de Sara
Baras. É um dos ritmos mais
tradicionais do flamenco atual, tendo
alterado muito pouco sua estrutura
ao longo do tempo, porém comporta
investidas contemporâneas como
as de Joaquín Cortez.
Na
guitarra a Farruca sempre foi cultivada
magistralmente por várias gerações
de guitarristas que incluem Ramón
Montoya, Sabicas, Niño de Ricardo,
Enrique de Melchior, Manolo Sanlúcar
e Paco de Lucía.
É
entre os guitarristas que encontramos
a maioria dos registros discográficos
deste ritmos. Entre elas podemos citar
como exemplo de uma Farruca tradicional
“Almoradi”, com Niño
de Ricardo (Grandes Figures du Flamenco
- Harmonia Mundi, 1991). Uma visão
mais contemporânea pode ser
ouvida em “Farruca de Lucia”,
na interpretação de
Paco de Lucia (“El Duende Flamenco
de Paco de Lucia” – Philips,
1972). Por fim uma interessante gravação
que apresenta guitarra e baile (taconeo)
pode ser encontrada no CD “Flamenco”
com guitarrista Paco Romero e o bailaor
Pepe Romero.
ALEGRIAS
As
Alegrias pertencem à família
das “Cantiñas”,
nome genérico com o qual se
denomina um grupo de gêneros
do Flamenco originários da
província de Cádiz.
Se
diz que as Alegrias são o gênero
flamenco que mais fortemente define
a forma de sentir da província
de Cadiz. Como diz seu nome, elas
constituem um cante alegre e forte,
tendo representado durante o século
XIX a função de cante
de festa, que seria durante o século
XX ocupado pelos Tangos e, principalmente,
pelas Bulerias.
Ainda
que sendo um cante de festa, uma exteriorização
da alegria interior de maneira profunda
e completa, as Alegrias apresentam
em si um elemento mais profundo, oculto
entre seus compassos mas claramente
perceptível nas interpretações
dos grandes cantaores. Este toque
de sofrimento e tristeza, jogado a
segundo plano pela explosão
da alma que se recusa a ser triste
poderia ser definido como a alegria
de quem conhece a dor, por isto mesmo
muito mais forte e profunda.
Deixando
história e outras considerações
de lado, podemos acrescentar que as
Alegrias são construídas
sobre compassos compostos de 12 tempos,
típicos de muitos bailes flamencos,
cuja configuração mais
usual (ainda que não seja a
única) apresenta tempos fortes
em 2-3-6-8-10. Utilizam tons maiores
e têm uma composição
harmônica tradicional bastante
conhecida, quem vem sendo renovada
pelos artistas flamencos contemporâneos
com a adição de variações
sobre acordes menores.
Como
audições recomendadas
(diríamos imperdíveis)
deste ritmo flamenco entre os mestres
do flamenco mencionamos para solo
de guitarra a bela “La Barrosa”
de Paco de Lucia (“Siroco”
– Polygram 1987) e para o cante
a gravação de Camarón
de La Isla do clássico “Un
Tiro Al Aire” no disco “Flamenco
Vivo – Camarón con Tomatito”
de 1987, rara gravação
ao vivo de onde os versos desta tradicional
alegria são realçados
pela voz magnífica do mestre:
“Que
con la luz del cigarro
Yo vi el molino
Se me apagó el cigarro
Perdi el camino…”
Entre
as gravações mais recentes
recomendamos “Cigala del Puerto”,
com Dieguito el Cigala (Undebel –
EMI Odeon 1998) que apresenta uma
Alegria contemporânea com inovações
harmônicas interessantes, sem
perda dos elementos essenciais, e
“Luna de la Victoria”,
com José Mercé (“Del
Amanecer” – Virgin Records
1998), magnífica composição
de Vicente Amigo, com um pé
na tradição e outro
na modernidade.
TANGUILLOS
Os
Tanguillos na sua concepção
mais tradicional se destacaram inicialmente
como sendo um dos diferentes estilos
musicais usados pelos “gaditanos”
(como se denomina aos que nascem em
Cádiz) para expressar seus
versos de carnaval. As melodias carnavalescas
de Cadiz executadas no mais puro ambiente
flamenco provocaram a cristalização
do Tanguillo tradicional como gênero
musical.
Sobre
sua origem musical, podemos dizer
que o Tanguillo, também chamado
por alguns “Tango de Cadiz”,
pertence à mesma raiz dos Tangos
Flamencos, dos Tientos e de outros
ritmos semelhantes, todos eles derivados
do tango andaluz primitivo ou “tango
americano”, cuja origem remonta
à Cuba e que aportou na andalucia
no século XIX.
O
compasso do Tanguillo se baseia numa
superposição de ritmos
binário e ternário,
que resulta num compasso 6X8, cujo
acento rítmico é bastante
característico e conhecido.
É interessante comentar que
o acento rítmico do Tanguillo
mais tradicional sofreu uma evolução
bastante importante pela ação
de criadores flamencos contemporâneos,
como Paco de Lucia, resultando num
Tanguillo contemporâneo, muito
divulgado e difundido pelos artistas
flamencos mais jovens.
Como
audições recomendadas
deste ritmo flamenco entre os mestres
do flamenco, mencionamos para solo
de guitarra “Casilda”
de Paco de Lucia (“Siroco”
– Polygram 1987), que representou
um ponto de transição
rumo ao Tanguillo contemporâneo,
e “Una Rosa Pa Tu Pelo”
de Camarón de La Isla (“Potro
de Rabia y Miel” – Polygram
1992). Também é interessante
a audição de um tanguillo
tradicional como por exemplo “Aquellos
Duros Antiguos”, gravação
de Pepe Romero e Chano Lobato”
(“Flamenco” – Philips,
1991).
Entre
as gravações mais recentes
recomendamos “La Brisa de Tu
Cuerpo”, com Ginesa Ortega (Oscuriá
– Harmonia Mundi 1998) que apresenta
uma bela e interessante melodia construída
sobre um tanguillo contemporâneo
e a imprescindível “Dos
Toreros” na voz de Remedios
Amaya (“Me Voy Contigo”
– EMI Odeon, 1997), letra de
M. Ruiz Quero sobre belíssima
composição de Vicente
Amigo.
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